Os últimos dias do Tua

Apesar de todos os esforços do Esporão e da Plataforma Salvar o Tua, a albufeira entrou na derradeira fase de enchimento.

Restam apenas algumas semanas para que centenas de hectares sejam completamente submersos e a paisagem da região mude para sempre.


Ao perdermos este pedaço de Portugal, o descontentamento dá lugar à reflexão e à solidariedade para com as populações locais.

Agradecemos aos milhares de pessoas que se juntaram a esta causa, que viram e partilharam os vídeos da campanha e enviaram mais de 23.000 cartas à UNESCO, procurando a proteção do Alto Douro Vinhateiro e do seu património histórico, paisagístico e natural.


A força e mobilização investidas na defesa do Vale e da Linha do Tua devem transformar-se em incentivo e esperança, para que não seja construída mais nenhuma barragem prejudicial e inútil no nosso país.


Obrigado a todos.

Esporão

Carta à Unesco

Dear members of the World Heritage Committee and Centre,

The Foz Tua Dam construction works started in 2011, endangering the Alto Douro Wine Region (ADWR), which has been classified as World Heritage by UNESCO.
Since the very beginning of this process, NGOs, corporations and thousands of citizens have demonstrated to UNESCO that the flooding of such important cultural landmarks and ecological assets (inseparable from the Douro and an integral part of the landscape) will jeopardize the region’s potential for sustainable development.
Wine producers have expressed their grave concerns regarding the impact caused by the future reservoir on wine production; associations have demonstrated the importance and value of the Tua mountain railway; adventure sports clubs continue to combat the loss one of the country’s best whitewater rivers and surfers have voiced concerns about sediment retention in new dams, which prevents natural replenishment of sand on beaches and aggravates coastal erosion.
United by ‘Save the Tua Platform’, all sectors of society have proved that the constraining and compensating measures stipulated by UNESCO are currently not being followed and will be ignored in the future.
Therefore, I ask UNESCO to fulfil its true role: that of an organization that safeguards places like the ADWR from destruction and to ensure future generations benefit from such unique places.
I urge UNESCO to take action by visiting the area, meeting all those involved and adding the ADWR to the List of World Heritage in Danger.

Yours sincerely,

--- Tradução em Português ---

Caros membros do Centro e do Comité do Património Mundial

Em 2011 teve início a construção da barragem de Foz Tua, pondo em risco o Alto Douro Vinhateiro, classificado pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade.

Desde então, organizações de defesa do ambiente, empresas e milhares de cidadãos têm demonstrado à UNESCO que a submersão de importantes marcos culturais e valores ecológicos – inseparáveis do Douro e parte do valor paisagem – põem em risco o potencial de desenvolvimento sustentável da região.

Os produtores de vinho demonstraram as suas preocupações face ao impacto que a futura albufeira pode causar na produção vitivinícola.

Várias associações têm demonstrado o valor da centenária linha de montanha do Tua.
Clubes de desportos de aventura têm lutado contra a perda de um dos melhores rios para a prática de atividades de águas bravas no país.
Surfistas têm demonstrado preocupação com a maior retenção de sedimentos em novas barragens, o que impede a reposição natural de areia nas praias e agrava a erosão costeira.

Agradeço que a UNESCO cumpra a sua missão: proteger da destruição locais como o Alto Douro Vinhateiro e assegurar que as futuras gerações possam deles desfrutar.

E peço à UNESCO para agir: fazendo uma visita à área, reunindo com todas os/as afetados/as pela construção da barragem e colocando o Alto Douro Vinhateiro na Lista do Património Mundial em Perigo.

Atenciosamente,

O que esteve em jogo?

Alto Douro Vinhateiro, Património Mundial da UNESCO
A barragem localiza-se na foz do rio Tua, a um quilómetro da sua confluência com o rio Douro. Os 108 metros desta parede de betão situam-se a poucos metros do coração do Alto Douro Vinhateiro, sendo que o paredão e grande parte da albufeira estão dentro da zona tampão.
O impacto na paisagem classificada será tremendo, agravado pela linha de muito alta tensão que liga a barragem à rede eléctrica nacional, atravessando o coração da região onde é produzido o célebre Vinho do Porto.
No início da construção, a UNESCO identificou um conflito entre a existência da barragem e a classificação do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial mas, em 2012, considerou que o projecto era compatível, desde que uma série de requisitos fossem seguidos. Acontece que não foram.

A Linha do Tua e a paisagem
A centenária Linha do Tua, de montanha, tinha um elevado valor cénico, sobretudo nos 21 km de vale em estado quase selvagem que ficaram submersos pela nova albufeira. Os 134 km de linha ferroviária que outrora ligavam o Douro ao Nordeste Transmontano foram cortados, impedindo definitivamente a ligação por comboio de Trás-os-Montes ao Porto ou à nova linha de alta velocidade espanhola.

Valores naturais e agrícolas insubstituíveis
A barragem será um desastre ecológico, destruindo ecossistemas raros e terrenos agrícolas.
Inundou mais de 400 hectares de olival, montado e vinhas, bem como habitats protegidos.
Em vez de correr, o rio fica aprisionado numa albufeira.
A qualidade da água vai degradar-se e, consequentemente, poluir a água do rio Douro.
Com o aumento da evaporação haverá mais humidade no ar, aumentando a incidência de doenças das vinhas, como o míldio.
A albufeira também vai bloquear o curso normal dos sedimentos, impedindo a reposição natural de areia nas praias e contribuindo para um aumento da erosão costeira.

Produção de electricidade limpa e a um custo justo
O único objectivo desta barragem é a produção de energia eléctrica, alegadamente para diminuir a dependência externa energética do país. Contudo, apenas irá contribuir com 0,1% do total nacional da energia consumida, correspondente a 0,5% da electricidade.
Será fortemente subsidiada, um fardo inútil sobre os consumidores e contribuintes.
Alternativas como a eficiência energética, o reforço de potência de barragens já existentes e a produção de energia solar, entre outras, garantem uma relação custo-eficácia muito melhor e, ao contrário das grandes barragens, benefícios ambientais claros.

Ex-Libris do desenvolvimento sustentável regional
O que é único cria valor. Destruir o vale do Tua e a sua linha de comboio diminuiu substancialmente a capacidade da região para se desenvolver de forma sustentável, nas dimensões social, ambiental e económica. Abriu uma ferida no coração do Alto Douro Vinhateiro, que é muito mais do que a origem do célebre Vinho do Porto. É parte de um património único em que Humanidade se casou com a Natureza de forma harmoniosa.

Barragem de Foz Tua Central Hidroelétrica Alto Douro Vinhateiro (ADV), Património Mundial da UNESCO

Porquê o Esporão

A missão do Esporão é fazer os melhores produtos que a natureza proporciona, de modo responsável e inspirador. O respeito pela Natureza não só está presente em todas as atividades que desenvolvemos, como se traduz no nosso grande objectivo: produzir vinhos e azeites únicos, cada vez melhores e mais autênticos, protegendo os recursos naturais e humanos que determinam a sua qualidade e continuidade.

Mais do que uma filosofia de trabalho, este é um compromisso sério, comprovado pela iniciativa “Countdown 2010”. O Esporão foi o primeiro produtor mundial de vinhos a assinar este protocolo europeu que estabeleceu medidas para preservar o meio ambiente e a biodiversidade.

É com base nesse compromisso que nos associamos à Plataforma “Salvar o Tua”. Os efeitos da construção da barragem são altamente nocivos e irreversíveis, nomeadamente o impacto visual do muro de betão na foz do Tua, o afogamento de um dos mais ricos ecossistemas ribeirinhos selvagens em Portugal e as alterações climáticas que poderão influenciar negativamente as condições de produção dos vinhos do Douro e Porto.

O que está em causa não é apenas a protecção ambiental de uma região considerada Património Mundial pela UNESCO. É também a preservação económica, social e cultural do Alto Douro Vinhateiro, a mais antiga região demarcada do mundo, de características únicas, ameaçada por um projecto que não traz vantagens ao território nem aos seus habitantes.

Foi por tudo isto que nos associámos a esta causa.